A testosterona também é produzida pelo organismo feminino e participa de diversas funções, incluindo libido, função sexual, composição corporal e saúde óssea. Apesar disso, a testosterona não deve ser utilizada de rotina por todas as mulheres, e níveis baixos no exame de sangue, isoladamente, não são suficientes para indicar tratamento.

Atualmente, a principal situação em que existe evidência para o uso de testosterona em mulheres é o transtorno do desejo sexual hipoativo (TDSH) em mulheres na pós-menopausa, após avaliação médica adequada e exclusão de outras causas para a redução da libido.

O tratamento deve ser individualizado e, quando indicado, utilizar doses que mantenham os níveis de testosterona dentro da faixa fisiológica feminina.


Toda mulher com testosterona baixa precisa fazer reposição?

Não. Esse é um dos principais pontos que precisa ser esclarecido.

Não existe atualmente um valor de testosterona no sangue que permita diagnosticar uma “deficiência de testosterona” em mulheres e, a partir desse resultado isolado, indicar reposição hormonal. Não existe um ponto de corte de testosterona sérica que defina deficiência androgênica feminina.

Além disso, a testosterona feminina é difícil de ser medida com precisão em concentrações baixas, especialmente quando com os métodos laboratoriais convencionais.

Por isso, não se deve tratar um número isolado do exame.

A avaliação deve considerar os sintomas, a história clínica, medicamentos em uso, saúde mental, relacionamento, sono, menopausa, presença de sintomas geniturinários e outras possíveis causas para a queixa apresentada.


E testosterona para ganhar massa muscular, emagrecer ou melhorar disposição?

Essas são queixas muito frequentes, mas não constituem, isoladamente, indicação para testosterona.

Até o momento, não há evidência suficiente para recomendar testosterona para:

emagrecimento
aumento de massa muscular
melhora da composição corporal
aumento de energia ou disposição
prevenção do envelhecimento
melhora da performance física
tratamento inespecífico dos sintomas da menopausa

A nota conjunta da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), FEBRASGO e Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) publicada em 2025 reforça que o uso de testosterona para finalidades estéticas, composição corporal, performance, disposição ou antienvelhecimento não é sustentado pelas evidências atuais.


“Mas se é um hormônio produzido pela mulher, por que pode fazer mal?”

Porque a dose faz diferença.

Produzir testosterona naturalmente não significa que qualquer quantidade de testosterona seja adequada para o organismo feminino. O mesmo princípio vale para outros hormônios.

O objetivo de uma terapia hormonal, quando indicada, não é produzir níveis hormonais muito acima do normal, mas corrigir uma deficiência clinicamente relevante ou tratar uma condição para a qual exista evidência de benefício.


Quais são os efeitos colaterais da testosterona?

Os efeitos dependem principalmente da dose, da duração do tratamento e da sensibilidade individual.

Quando os níveis de andrógenos ficam acima da faixa fisiológica feminina, aumentam os riscos de efeitos adversos, como:

acne e aumento da oleosidade da pele
aumento de pelos
queda de cabelo
alterações menstruais
aumento do clitóris
engrossamento da voz
alterações de humor
aumento do hematócrito
alterações desfavoráveis do colesterol

Algumas dessas alterações podem ser irreversíveis.


Antes de iniciar testosterona

A avaliação deve começar pela pergunta mais importante:

Existe uma indicação clínica para o tratamento?

Dependendo da situação, é necessário investigar fatores que podem explicar sintomas como redução da libido, cansaço, alteração do humor ou perda de massa muscular, incluindo:

sono inadequado
estresse
medicamentos
depressão e ansiedade
problemas de relacionamento
sintomas da menopausa
doenças da tireoide
anemia e deficiências nutricionais

Os exames laboratoriais podem auxiliar na avaliação, mas um valor isolado de testosterona não determina sozinho a necessidade de tratamento.


Em resumo

A testosterona não é um hormônio “proibido” para mulheres, mas também não deve ser tratada como uma solução universal para libido, emagrecimento, ganho de massa muscular ou disposição.

Quando existe indicação, o tratamento deve ser feito com dose adequada, acompanhamento médico e monitorização dos efeitos clínicos e laboratoriais.

O objetivo é buscar benefício com o menor risco possível, mantendo os níveis hormonais dentro de uma faixa apropriada para a mulher.